Quarta-feira, 29 de Setembro de 2010
E não é que fui?

Existe sempre um enorme pudor quando se dá de caras com actores, músicos, locutores, escritores de quem nos tornamos seguidores e conhecemos tanto, ou achamos que sim, conhecemos tanto, menos a cara a três dimensões, menos a pessoa em versão real, de carne e de osso. Já tive dolorosas paixões platónicas por todos por causa das palavras. Uns cantam, outros dizem-nas muito bem, outros escrevem. E eu gosto de palavras. Já adorei, agora gosto. Chorei muito quando o Kurt Cobain morreu, apertei a mão ao Billy Corgan e só a lavei quando achei que já chegava de demência, precisamente nesse dia antes de me deitar. Andei à procura do Jude Law em Londres. Tive uma relação com um locutor que só existiu na minha cabeça, cheia de diálogos entre nós com direito a birras de dia-a-dia e tudo. Alguns dos meus melhores amigos são locutores também; e os escritores têm o dom de me deixar paralisada. O António Lobo Antunes fez-me ficar quatro minutos e meio parada, sem me mexer no meio de uma feira do livro em Lisboa. Queria dizer-lhe muita coisa e nada em mim acordava. Nem olhava para ele, fiz-me de estrábica com meio olho nele, outro meio nos churros e o outro a ver tudo desfocado. Fui embora, sem dizer, sem olhar, sem pedir uma assinatura que ele provavelmente escreveria sem me ver mas seria a única coisa que escreveria só para mim. Perco muito coisa por não me mexer quando devo. Também perco quando me ponho a mexer dali para fora, já me aconteceu com um homem da literatura e ainda bem que perdi, sou franzina e ele não era. Penso muitas vezes que, se tivesse acontecido o que os olhos dele pediam, a esta hora não estaria aqui. Tenho para mim que um homem é capaz de esborrachar uma mulher. Mas isso não interessa para o caso. Hoje havia o lançamento de um livro na Bertrand do Chiado. O segundo livro de uma senhora que tinha um blog e agora já não tem, o que me deixou contrariada. Mas ela é que sabe. Estive para não ir por me sentir ridícula e as groupies só seguem as bandas e não escritores. Passei à porta, estava muita gente. Fingi que passei por acaso e nem percebia o que estava a acontecer. Fui à Gardénia a ver se a futilidade me chamava. Devia estar afónica. Ela que sabe tão bem o meu nome. Quando percebi que já tinham entrado, fui novamente a fingir que estava à procura de um livro qualquer. Não aquele. Aquele chama-se Para Interromper o Amor. É da Mónica Marques, que não é um Lobo Antunes mas já lhe conhecia as manhas de escrita e uma pessoa torna-se íntima assim. Entrei e fui para trás das vinte e tal pessoas, muito provavelmente amigos que estavam ali para lhe dar apoio. Eu não estava. Estava de voyeur, cheia de curiosidade. É pequena, tem ar de mãe cool de dois filhos mas olhos que sabem muito. E os intelectuais que tanto tesão lhe dão, estavam lá. Drooling. A palavra fica melhor em inglês. O Pedro Mexia a falar de conversas de ir ao cu, e de boca cheia. Ela a falar de fufas e a rejeitar a ideia de que o livro é sobre fufismo. E o dilema de ter escrito sem a "puta da história". Gosto de mulheres que escrevem palavrões. Que escrevem foda, cu, puta. Imagino que tenham vidas sexuais menos contidas. E eles: Drooling! E eu a pensar que o marido deve ser um gajo do caraças cheio de segurança por continuar casado com ela depois do blog, depois dos livros. Depois do que ela inventa – porque quem escreve inventa muito - do sexo que põe na cabeça de quem lê. Do que escreve a tinta de esperma. E não é qualquer marido que atura essas cenas, essas ficções. O que os outros vão pensar dele, e ele nem aí. Deve ser assim. Fiquei a ouvir tudo e a sentir não devia lá estar. Senti-me uma penetra da inteligência. O João Tordo também lá estava e eu queria dizer-lhe como esperava que fosse o final do Bom Inverno que acabei de ler à sôfrega. Mais uma vez, os escritores paralisam-me e não disse nada. Fui embora sem livro. Não ia comprá-lo à frente de todos, era logo catada. Comprei-o na Bertrand do Campo Pequeno sem a pressão de pedir um autógrafo, de uma linha escrita só para mim. Quero que ela escreva para todos, sou ou não sou uma altruísta em forma de gente? Já estou a ler o livro. O tal que não tem a puta da história. “Para Interromper o Amor”.



publicado por Menina da Rádio às 00:07
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11 comentários:
De tiago taron a 29 de Setembro de 2010 às 09:29
Eu conheci a Mónica Marques depois do mesmo processo. Fui ao primeiro lançamento (o do TransaAtlântica) na FNAC e senti então as mesmas coisas, quase pela mesma ordem, que descreve. Também eu entrei como se tivesse ido espreitar o último portátil e "já que estou aqui vou ali". Depois de ler o livro e de continuar a ler o Blog mandei-lhe um dia em e-mail. Ontem estava lá para a ver (já tinha lido o livro) e ouvir, com curiosidade do que o Pedro Mexia ia dizer. Da próxima vez que a vir não deixe de lhe falar e de lhe contar o que aqui deixou.


De Mónica Marques a 29 de Setembro de 2010 às 12:15
beijinhos. O sushi voltou.


De Catia a 29 de Setembro de 2010 às 14:10
Cool!!! Welcome back!


De Tiago Taron a 29 de Setembro de 2010 às 22:02
Brava! Mónica!
Brava! Éter-ó-sexual (menina da rádio)


De jonasnuts a 29 de Setembro de 2010 às 13:06
Obrigada Menina da Rádio.

Pelos posts, sobretudo, mas também por ter conseguido que a Mónica mudasse de ideias quanto ao Sushi :)

Os Blogs do SAPO agradecem :)


De paula a 29 de Setembro de 2010 às 13:07
e eu agradeço, Menina da Rádio e Tiago, pelo que escreveram e à Mónica porque voltou.


De alexandra a 29 de Setembro de 2010 às 14:18
Fiz exactamente o mesmo. Fui de penetra.

Adorei ver a Mónica, também comprei o livro noutro sítio, mas reservei-me à distância. Gosto dos blogues, dos autores dos blogues assim.

É muito bom ver o Sushi de volta. Obrigada, Mónica!


De Menina da Rádio a 29 de Setembro de 2010 às 14:40
Eh lá! Hoje vou andar toda histérica e com a mania. A culpa é da Mónica Marques. (Prometo que amanhã passa).

Obrigada!


De angelofpromise a 29 de Setembro de 2010 às 23:01
Que bom ler-te de volta :)


De Sissi a 30 de Setembro de 2010 às 01:22
Só para avisar que eu é que sou a madrinha deste blog.

Menina, és parva. Devias ter-me dito. Tinhamos ido as duas fingir que não temos uma fétiche com a Mónica Marques. Li o Transa Atlântica e só me ficou a palavra «transa.» Parva. Tinhamos ido as duas. Sexta logo me contas.


De Menina da Rádio a 30 de Setembro de 2010 às 14:26
Sou guardadora de fetiches, só contei ao J. Mas na sexta conto-te todos os meus fetiches, está prometido.


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